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novembro 2011

Dia
30
19h44

Comer sozinho me atinge em cheio, emocionalmente. Não estender o garfo para João é estranho. Não ouvir Lua me pedir para experimentar o meu prato, que está com uma cara ótima, idem. Não ser convidado por Hugo a conhecer um restaurante incrível. Não saborear uma receita nova de Thiago. Não petiscar na linda casa de Laura e Pedro. Não ser pego de surpresa com o sorriso de Andrea Kaufman ao lado da mesa perguntando se está tudo bem. Não receber em casa os pernambucanos e baianos que matam e morrem pelo nosso cozido dominical. Tudo isso tem me mostrado a pior das solidões. Tenho feito poucas refeições inesquecíveis aqui no Rio, por enquanto. Com as raras exceções dos sempre divertidos almoços com o pessoal da agência ou dos sempre enriquecedores jantares com o meu querido PC.
Comer sozinho é contemplar horizontes no meu limite máximo da dispersão do pensamento. Em uma garfada, pude ir da alegria do sabor da comida à tristeza do dissabor de não poder contar a um alguém sentado na cadeira à frente. Por outro lado, estar só em uma refeição pode aguçar as lembranças do paladar mais duradouro que temos, a memória que nos alimenta da saudade boa, essa rara companhia.
Da entrada à sobremesa no Zazá Bistrô, dia desses, pude percorrer uma cozinha imaginária que apenas eu e Dr. Herbert conhecemos: a minha própria.
Minha vida se passa numa cozinha. O meu filme não tem imagem, mas cheiro. Não tem som, mas tempero. Bato panelas, quebro copos, lavo apressadamente um utensílio para desfazer um erro e choro com ou sem cortar cebolas. A cozinha me acompanha porque é nela que eu vivo, imaginariamente. Eu sei onde estão os ingredientes, eu sei onde guardo os fósforos (sim, uso fósforos), sei perfeitamente qual a boca do fogão mais eficiente. Na cozinha, eu deixo entrar quem traz vento para curar o calor do que ferve, borbulha.
Ao pedir o café e a conta, senti-me satisfeito. Havia preenchido um vazio, outro que não o da fome. Estava satisfeito, sim, com o horizonte encontrado por desfrutar do jejum dos meus. Tomei dois cafés e paguei a conta.
Enquanto João brincava no chão, com um carrinho. Lua conversava com Laura. Pedro, Hugo e Thiago contavam histórias. Andrea estava viajando com a família, mas lembrei disso.
Estava absolutamente só, mas muito bem acompanhado de pensamentos que derrubam quaisquer muros. Mesmo os que antes – assim me disseram – pareciam ser intransponíveis.
Agradeci, levantei, saí. Ainda tive tempo de observar que muitas mesas estavam ocupadas no restaurante, com casais, famílias, amigos. Nem havia percebido.

{O Zazá é delicioso. Fui lá três vezes, até agora, em situações muito distintas. Esse é o relato de uma ida solitária.}
{Solidão, Alceu Valença, clique aqui. A letra já começa resolvendo tudo: “a solidão é fera, a solidão devora”.}

novembro 2011

Dia
17
0h02

Gostaria de trocar duas palavrinhas com você, Pedro Fonseca. Eu entrego a palavra saudade e você me oferece a palavra fé. Simples como simples é o ofício dos mascates, corretores, putas e jornalistas: tudo troca-se por tudo, às vezes tudo troca-se por nada, outras vezes nada troca-se por tudo. Aqui, sem juízo de valor (nem juízo, nem valor) fica apenas o registro da proposta de troca em formato de toma lá, dá cá, relacionada às suas palavras supracitadas. Tens a fé em mãos? Troca à vista, aceito no ato. Dou a saudade – devolvo, em verdade.

A minha necessidade é claríssima. Entrego a saudade para que você possa experimentar no lugar da fé, enquanto a mim caberá exatamente o movimento contrário. Receberei a sua fé, enxergando a saudade de costas a andar em uma direção que não saberei qual é.

A troca não é definitiva, esclareço. Nem a troca, nem a saudade, nem a fé. Tudo oscila. Os sentimentos são propagados por um theremin frenético, manuseado por um louco que sou eu, você, nós e todos nós. Sentimento é frequência. E eis que quanto mais sente-se, mais ouve-se, mais nos aquieta. Frequência, depois que acostumamos, vira som. E som dorme a gente, adormece.

A troca pode ser hoje. Tens a fé em mãos? Tenho a saudade aqui, guardo no bolso esquerdo da minha camisa azul de botões brancos, que só tive tempo de observar agora como estou vestido, quase quando o hoje dará lugar ao amanhã. Gostaria de começar o amanhã com a sua fé. É viável? Toda troca é uma via de mão dupla. Uma minha, uma sua. Estendo?

Obrigado por compreender. Não saberei como carregar a fé, porque desacostumei a carregar algo tão leve. Vamos, dê aqui isso e tome lá isso outro. Obrigado por aceitar. Devolveremos assim que curados, nós dois. Assim fica combinado. Obrigado.

Do encontro entre nós – eu mesmo e eu, um outro – saímos, ambos, por caminhos trocados. Burros de carga em linhas retas escrevendo tortas para que a lugar nenhum chegássemos, exceto se ao final houvesse um reencontro.

Ainda haverá o dia em que fé e saudade estarão com apenas um de nós. Este dia é hoje, porque ontem se foi, sem carregar nada, sem deixar nada, sem aviso.

Não conheço um você que goste de aviso, Pedro. Por isso, aqui vai um: aviso, formalmente, que teremos que reaprender algo. Alimentar a fé. Matar, de fome, a saudade.

Bom dia. Porque mais esta noite, tenho fé, já se foi.

novembro 2011

Dia
08
12h40

Ela conta melhor que eu, mas em resumo – muito breve – foi assim: estava sentada em cima de uma caixa de som, cheguei e nunca mais saí da vida dela. Foi minha amiga durante muitos anos até eu entender que é a partir de uma amizade que nasce o amor (o resto é resto e vai para o lixo orgânico). Descobri, com ela, dois significados para amor. O meu amor e o nosso amor. O meu amor é ela, o nosso amor é o infinito, materializado em um cara (um, por enquanto) chamado João, a quem chamamos, os dois, de filho. O nosso filho é representante máximo do nosso amor, reflexo meu e dela no mesmo espelho. Os que virão serão, igualmente, extensão do que sentimos. Serão amor em forma de gente, de sonho realizado. Que venham muitos. O meu amor, esse tem nome e sobrenome e é ela. Lua.
Não há ninguém no mundo que me faça ser tão eu. E eis aqui o mistério de uma relação única, duradoura, forte, transparente, amiga, volto ao primeiro adjetivo: única. Única como a própria Lua é, aos meus olhos, coração, mãos, cabeça, eu inteiro. Lua é única porque me faz acreditar na vida – enquanto o mundo tenta sempre convencer-nos (a todos) do contrário, com essa enorme crueldade banalizada. O mundo, coitado, está sozinho. Lua e eu somos dois.
Sou mais ela, em tudo. Admiro, torço, faço, desfaço, ando, paro, sou por ela. Desde que a encontrei sentada na caixa de som, algo me dizia que seria assim. É. Sempre será. Porque ela e eu participamos de uma coisa que poucos têm a felicidade de dividir: um reencontro eterno.
Estou sentado em um vigésimo-segundo andar, onde posso ver boa parte de São Paulo. Uma vista linda, de cidade grande (como ela e eu adoramos). Apesar do céu azul, lá no horizonte, a típica fuligem impede o olhar de ir adiante. Dane-se. Eu nunca precisei mesmo saber. O meu horizonte real sempre foi maior. Sempre foi ela.
Hoje, aniversário de Lua, deixo os parabéns para cada momento em que estivermos juntos – durante esse dia tão feliz. E aqui, espaço público onde qualquer um pode ver, uso outra palavra: obrigado. Por ser o meu amor, por me fazer ser o que sou.
Eu amo saber que o meu amor é você.

outubro 2011

outubro 2011

setembro 2011

Dia
20
16h28

[Esta imagem não tem filtro. Nem solar.]

setembro 2011

setembro 2011

setembro 2011

agosto 2011

Dia
22
13h53

Dar-te-ei [Marcelo Jeneci] from pedrinho on Vimeo.

{Imagens das copas das árvores: João Fonseca. Demais imagens: Pedro Fonseca.}